02 junho, 2011

Algumas histórias merecem ser (re)contadas, sempre.



Tony W. Ramos, apresentando o PRECE
Hoje, 02 de junho de 2011, um grupo de precistas esteve na Escola  Estadual de Ensino Profissional Paulo Petrola,  localizada na Barra do Ceará. Nesta manhã tivemos a oportunidade de apresentar aos alunos dessa instituição a história que vem nos estimulando, desde 1994, a ver na educação de qualidade a melhor maneira de perceber-se humano, cidadão e político. O presente texto nasce dessa experiência.
A história do PRECE (Programa de Educação em Células Cooperativas- http://www.prece.ufc.br/) é extramamente impactante, pois ela retrata a caminhada de estudantes de origem popular, a maioria oriunda do Sertão, que conseguiram ingressar nas universidades públicas e privadas do estado do Ceará. Só na Universidade Federal do Ceará já passaram mais de 300 estudantes precistas. Qual o segredo? Mútua cooperação.  Hoje  temos doutores e mestres, muitas conquistas foram alcançadas ao longo dos 17 anos de atuação, fomos reconhecidos nacional e internacionalmente pelo trabalho realizado. No entanto, nosso maior legado ultrapassa todos os diplomas emitidos, medalhas meritosas ou títulos.  Nosso maior legado é puder contar uma história que é capaz de mudar a vida das pessoas, não importa onde elas estejam.

Estudantes da Escola
Sentados nas cadeiras do auditório da Escola  Profissional Paulo Petrola estavam mais de cem estudantes. Ali traziam suas curiosidades, inquietações e sonhos.  Logo ao início os olhares estavam atentos, o silêncio se fez e vez ou outra escutávamos alguns murmúrios. Alguns não conseguiam conter o entusiasmo e facinação diante da história de sete estudantes do Cipó-Pentecoste, que fadados ao descaso político em suas comunidades locais, desafiaram ao próprio destino e a si mesmos, montando um grupo de estudos, vivendo numa casa de fazer farinha e perseguindo um sonho que nem eles mesmos entendiam completamente: entrar na Universidade. Vi os rostos atentos e os sussurros juvenis quando foi contada a história de um agricultor das “brenhas do Ceará” que aos 37 anos, já com 8 filhos, agarrou o mesmo desafio e através de uma edudação cooperativa conseguiu ingressar na Universidae Federal, juntamente com sua filha. Depois, a história dos moços e moças que enfretavam o “pingo do mei dia” numa viagem fatigante de 18 quilômetros, encima de um pau-de-arara, com o intuito de estudar e “ser gente”. As histórias não param por aqui. Esse é apenas o começo do que viria a ser o PRECE (@prece_ce), ICORES, Estudante Ativo, Estudante Cooperativo, Movimento em defesa da escola pública,  COFAC (http://www.cofacufc.blogspot.com/),  ADEL (http://www.adel.org.br/), dentre outras iniciativas.
Essa hitória sei “de cor e salteado”. Por isso, enquanto organizávamos o equipamento e alimentávamos nossa expectativa, eu cheguei a pensar assim: mais uma vez a história da casa de fazer farinha, as fotos do juazeiro, a música Coração de estudante. Sim, mais uma vez, talvez pela centésima quinquagésima oitava vez, que é um número bem alto! Abre paréntesis: esse número 158 não sai da minha mente. Seguramente tem um texto “se bulindo”, querendo ser escrito para este número. Fecha paréntesis.
Quando a apresentação terminou, veio a delícia do diálogo. Os estudantes trouxeram suas dúvidas e depoimentos e se mostraram felizes com a experiência. Eu também fiquei. Conversamos com eles, com os professores da escola e com o grupo gestor. Todos estavam ali para compartilhar caminhadas e lutas quixotescas, agarrados e motivados por sonhos paradoxalmente individuais e coletivos.  Ao sair, alguns olhares nos seguiram, neles estava escrito: Obrigada por compartilhar suas experiências! Meia dúzia arriscou-se a nos parabenizar e expressar seus pensamentos. Eu já não tinha dúvidas: poderia ouvir essa mesma história por mil vezes.
Por Viviane Matos

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Quem sou eu

É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou. Meu nome, não importa, nem qualquer outro pormenor exterior meu próprio. Devo falar de meu caráter. A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e de dúvida. Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo. Tudo para mim é incoerência e mudança. Tudo é mistério e tudo está cheio de significado. Todas as coisas são 'desconhecidas', simbólicas do Desconhecido. Em conseqüência, o horror, o mistério, o medo por demais inteligente. Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo ambiente que me cercou a infância, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isto meu caráter é da espécie interiorizada, concentrada, muda, não auto-suficiente, mas perdida em si mesma. Toda a minha vida tem sido de passividade e de sonho". Fernando Pessoa (1888-1935)