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01 abril, 2011

Porque sei que vou passar

De Salvador Dali
De repente, sempre de repente, dou de cara com a mais bruta realidade: vou passar. As páginas de meu livro estão se esgotando; os leves estalos de meu relógio, silenciando. A lua não passará por muitos outros eclipses antes de meu sono derradeiro. De dentro, ouço a incessante ladainha: Vou passar, vou passar, vou passar...
Sei que vou passar. Prometo pular da cama na segunda-feira sem a obrigação de mudar o mundo antes que chegue o sábado. Inconformado com roteiros alheios, prometo não apostar corrida com este maldito calendário que, ultimamente, anda tão apressado. Prometo ser mordomo do dia e vigiar para que a existência não desapareça em fatias semanais; que as semanas não se diluam em meses; que os meses não se esfarelem em anos; e que os anos não se acabem em décadas.
Sei que vou passar. Prometo não negar aos meus olhos a deliciosa lembrança da professorinha de matemática de minha adolescência. Mariazinha tentou ensinar-me equações do terceiro grau enquanto meus olhos apaixonados se concentravam na geometria do seu corpo. Prometo remontar aqueles dias quando desconhecia moralismos e tabus religiosos que, depois, assassinaram as minhas paixões adultas.
Sei que vou passar. Prometo recuperar o tempo que desperdicei sem ler. Vou continuar a escolher com apuro os bons escritores. Já aprendi com Machado de Assis a lembrar-me que a hipocrisia social é avassaladora; e que só conseguimos ser honestos sobre a vida se escrevêssemos “Memórias Póstumas”. Graciliano Ramos me ensinou sobre a miséria que condena o pobre a menos que uma cadela – a Baleia de "Vidas Secas". Fernando Pessoa, meu poeta maior, me conduziu à coragem de enfrentar a angústia existencial mesmo quando produz "Desassossego". Com Dostoievski aprendi que um Raskolnikov, ambiguamente assassino e redimido, habita em cada um de nós. Victor Hugo me fez descobrir Cristo na vida de Jean Valjean, o egresso das galés, que ama sem conhecer limites.
Sei que vou passar. Prometo continuar correndo longos quilômetros. Vou continuar a encharcar a camisa de suor por pura diversão. E quando beber água de coco e alongar os músculos doloridos trarei um leve sorriso de contentamento. Hei de manter ares de campeão nas maratonas, São Silvestres e em todas as corridas de rua que participar. Ao pendurar a medalha de participação no peito, vou deixar que um santo orgulho enrubesça o meu rosto. 
Sei que vou passar. Prometo contar para os netos as histórias de meus pais. Ao narrar o que vivenciei de um passado que já não existe, transmitirei o legado de nossa família . Quero entregar a eles a carteira de Atleta do Corinthians do papai; meus netos se tornarão os futuros guardiões de uma relíquia sagrada. O poema que minha mãe escreveu em uma tarde triste continuará na parede do meu escritório. Prometo nunca riscar da memória o sorriso melancólico da mulher que me deu colo e peito.
Sei que vou passar. Prometo a brindar o vinho como liturgia divina, que celebra a aliança de amigos. Vou considerar a hora em que a lua tinge o dia de prata como a melhor hora do dia. Prometo ser amigo da noite, vizinho do silêncio e parceiro das madrugadas solitárias.
Sei que vou passar. Prometo ser inteiro no que fizer, amigo fiel, bondoso com o desconhecido e terno na hora dos tropeços dos outros. Vou procurar indignar-me com a injustiça; reverenciar os pacificadores, só eles são chamados filhos de Deus.
Sei que vou passar. Prometo encher a minha aljava com a delicadeza das rosas, a irreverência dos colibris, a folia dos golfinhos, a calma do jabuti, a imponência dos carvalhos e o renascer das marés. Procurarei trazer nos lábios, mesmo diante da grande crueldade, um sorriso sempre a dizer "sou feliz".

Por Ricardo Gondim

Quem sou eu

É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou. Meu nome, não importa, nem qualquer outro pormenor exterior meu próprio. Devo falar de meu caráter. A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e de dúvida. Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo. Tudo para mim é incoerência e mudança. Tudo é mistério e tudo está cheio de significado. Todas as coisas são 'desconhecidas', simbólicas do Desconhecido. Em conseqüência, o horror, o mistério, o medo por demais inteligente. Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo ambiente que me cercou a infância, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isto meu caráter é da espécie interiorizada, concentrada, muda, não auto-suficiente, mas perdida em si mesma. Toda a minha vida tem sido de passividade e de sonho". Fernando Pessoa (1888-1935)