02 junho, 2010

Conversando





Minha terra por ventura merece tal descrição:
lá a vida é menos dura, qualquer um lhe estende a mão
O céu é menos cinzento, lá não tem poluição
Só existe um argumento que me parte o coração:
Ver o povo madrugar e seguir para o roçado
Mas se a chuva não chegar, perde o que se foi plantado
Eu agora, exilada, só me resta descrever :
Aqui não encontro nada que me motive a viver
Mas falar da minha terra, Ah! Isso me dar prazer
E mesmo aqui, tão distante, tenho algo pra pedir:
Quero agora, nesse instante, voltar para Manarí
Pois eu não quero morrer sem ir lá me despedir

Versos transcritos da fala de Valéria, estudante de 16 anos, residente em Manarí. Ela recita seus versos no filme Pro dia Nascer Feliz, direção de João Jardim. A menina declara que sua criação é desacreditada por seus professores, que atribuem notas baixas para suas produções. O documentário é de excelente qualidade e muito provocativo!!! 

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Quem sou eu

É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou. Meu nome, não importa, nem qualquer outro pormenor exterior meu próprio. Devo falar de meu caráter. A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e de dúvida. Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo. Tudo para mim é incoerência e mudança. Tudo é mistério e tudo está cheio de significado. Todas as coisas são 'desconhecidas', simbólicas do Desconhecido. Em conseqüência, o horror, o mistério, o medo por demais inteligente. Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo ambiente que me cercou a infância, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isto meu caráter é da espécie interiorizada, concentrada, muda, não auto-suficiente, mas perdida em si mesma. Toda a minha vida tem sido de passividade e de sonho". Fernando Pessoa (1888-1935)